Um orgasmo sombrio, principio vital do prazer e da tortuta…


Falar de horror sem citá-lo é quase uma heresia. Clive é o mestre de um gênero de horror pouquíssimo explorado pela literatura: o horror que choca, enoja, repugna… Faz vomitar. O horror que sangra! Um gênero completamente oposto ao de Stephen King, nomeado erroneamente de mestre da ficção de horror. Enquanto Stephen King apela à psicologia, à moral, à crítica social; Clive age como um açougueiro metódico: desmembrando pedaço por pedaço da nossa sanidade e nos joga num mar de sangue, tripas, e o que mais vier.

Enquanto os autores da tradição de Edgar Alan Poe (entre eles Stephen King) constroem lentamente o espaço e o tempo de suas histórias, reservando o “melhor” para o final, Clive e seus comparsas, pegam o ônibus um caminho neurótico ou psicótico e perverso, e aceleram até o limite – de preferência jogando-o contra um emaranhado de tripas. Em Clive, uma regra das histórias de terror é quebrada: ninguém é punido por sua falta de moral. Pelo contrário, às vezes até se é recompensando (como no caso de Kaufman em “O Trem de Carne da Meia-Noite”). Os moralistas e os bem-aventurados… Ah, que sejam punidos todos eles! Na linguagem perversa das histórias de Clive Barker só há duas saídas: a morte ou a loucura. E nada mais justo!

Nada mais apropriado, também, do que “Livros de Sangue” para o título desta coletânea de contos. É sangue o que pinga de página após página, porque afinal como diz o primeiro livro “Cada corpo é um livro de sangue: sempre que nos abrem, a impressão é vermelha”. E então é possível compreender qual mente doentia poderia conceber Hellraiser e seus cenobitas. Mas o melhor de Clive Barker é sua literatura. É nela que ele explora todo um arsenal de estilo, maluquice e extremidades que deixariam até Takashi Miike enojado.

Confesso que me arrependo, por não ter lido Clive Baker antes. E não posso deixar de desejar que por muito tempo possa vomitar luz sobre a cabeça de nós, os depravados condenados…

~ por Vodevil em 16 de maio de 2010.

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